À ESQUERDA DE MISES
A esquerda é a única detentora de toda e qualquer crítica ao marxismo que realmente se baseia na verdade. E nem por isso todo e qualquer movimento, partido ou ideologia de esquerda é livre de ser julgada por um tipo de marxismo. Mas será que Marx está mesmo na fonte de todo e qualquer movimento de esquerda? Em primeiro lugar, Marx não cria no socialismo, não foi o primeiro socialista e ele propôs uma nova hermenêutica para o mesmo socialismo, o que muitos chamaram, após o teórico alemão, de socialismo científico.
Mas o marxismo é uma ciência? Há mesmo uma prática científica do socialismo baseado em sua prática? O socialismo seria, também, uma ciência? A minha resposta é não para todos as perguntas. O O socialismo é uma prática discursiva, o marxismo outra, embora tenham enunciados em comum. No entanto, isso não autoriza se entender a ambos como ciência. Mas sim como positividades filosóficas, práticas sociais e políticas. O marxismo é uma filosofia que buscou, por meio da prática do socialismo e da hermenêutica que emprestou a história e aos saberes sociais, romper limiares epistemológicos em busca de verdades específicas e da compreensão da sociedade face à modernidade que surgiu com o fim do Antigo Regime, com a ascenção do capitalismo. Mas esses limiares epistemológicos não foram totalmente rompidos e patamares superiores não foram alcançados. A partir de determinado momento, o marxismo transformou uma interpretação das coisas em dogma científico, faltou vontade a quem se utilizou dele, do seu surgimento até o fim do século XX, de retornar os resultados obtidos á teoria e escrutiná-la. Mas isso tem lá as suas razões históricas e epistemológicas.
O marxismo não é um erro, mas uma tentativa importante, uma base que pôde transformar o conhecimento ocidental principalmente por ser um complexo teórico que ousou questionar certas ordens e a empoderar teórica e metodologicamente o grupo de resistência à exploração da população trabalhadora. Isso o pôs de determinado lado das coisas que facilitou se entendê-lo como verdade. A pujança do conhecimento trazido por Marx dentro do contexto de mudança epistemológica do século XIX, incluindo nisso o positivismo, as ideias de Darwin e as ideias de Freud anos depois deu o tom da independência do pensamento humano da prática social que era ditada pelo desenvolvimento econômico. O marxismo bradava contra a exploração, baseando-se na teoria supervalorizada do valor do trabalho, o positivismo anunciava a necessidade de se criar uma sociedade cujo governo seria o da ciência, não o da tradição e das relações de poder antigas. Já a biologia darwiniana retirava a vida de uma vez por todas das mãos de uma inteligência divina, enquanto o pensamento freudiano que inaugurava os anos de mil e novecentos lançava o eu, o sujeito uno e superior, o cogito ergo sum nas malhas escuras e fragmentadoras do inconsciente.
Mas algo em comum a todas essas teorias incomoda. Nenhuma delas, com exceção das ideias de Darwin, passaram exatamente por um crivo de cientificidade. Sem leis, comprovações, experimentações suficientes ou pelo menos a imposição da falseabilidade popperiana. Marx, Freud e até mesmo Comte criaram sistemas filosóficos para servir de piloto para compreensão da sociedade e da humanidade como grandes cartadas epistemológicas. Serviram-se do discurso científico, de procedimentos de ciência e pararam antes que eles pudessem alcançar um teto possível para época. A exemplo disso, é o valor do trabalho em Marx. Sua observação, na segunda seção de O Capital, livro I, é muito bem construída, magistralmente escrita e positiva. Usa uma base empírica para discutir o valor do trabalho, conceito em que ele amarraria, mais à frente na sua obra, outros conceitos para explicar o funcionamento da sociedade do trabalho, a exemplo, a ideologia, a alienação e o próprio conceito de capital. Faltou ali uma série histórica de dados que pudessem mostrar o quanto isso realmente fosse verdade, a hipótese virou tese e depois uma espécie de lei, um parâmetro hermenêutico importante. Tudo o mais dentro do marxismo foi construído assim: um mínimo de matemática, embora o assunto fosse muito atinente a ela, um máximo de interpretação. O importante é que o marxismo serviria à tarefa de desvendar os problemas da exploração capitalista do trabalho, é uma teoria prêt-à-porter, falar isso não é exatamente uma desonestidade, Marx já era engajado com a política a favor do proletariado e trabalhava para organizá-los politicamente, antes mesmo que suas certezas filosóficas dessem conta de uma teoria de tudo, que fosse da história à economia sem maiores problemas.
A utilidade do marxismo sobrepujou a ciência que poderia ter vindo dele. Era o único esforço epistemológico de tentar buscar verdade sem relações diretas com um lado que tivesse interesse político em falsear resultados. E no tocante a isso, o marxismo produziu resultados positivos, pois inaugurou a possibilidade de produzir material historiográfico voltado à verdade, sem ser exatamente encomendado por uma classe governamental. O marxismo, o positivismo, por exemplo, não estavam, a priori, a serviço de empregadores do setor econômico ou governamental. Honestamente falando, essas teorias comprovam a existência, na conturbada e antidemocrática Europa nos anos de mil e oitocentos, uma importante independência da universidade em relação aos governos locais de lá. No entanto, algo barrou o marxismo na sua caminha da pela ciência, na minha análise, a necessidade de se aplicá-lo logo na política do socialismo pregado por seus criadores. E em seguida, durante esse século, e por setenta anos durante o século seguinte, a adoção de pressupostos marxistas aprioristicamente nos seios das ciências humanas.
Desse modo, para derrotar Marx, pegue-se sua teoria e tente fazer as contas do que ele diz, para ver se batem com o resultado. Ou então, pensem novamente suas categorias, seu conhecimento de base e veja se isso se aplica pelo menos à realidade que inauguraria esse pensamento. Pode ser que não dê certo. Dizem que isso foi feito por teóricos do século passado, inclusive há uma epistemologia austríaca cujo maior feito teria sido desmistificar o socialismo. Nada impossível, dadas as condições em que se encontrava esse grupo: historicamente distante, capaz de recortar as ideias e seus resultados a longo prazo e a partir de tudo isso, propor abordagens que possibilitariam sua crítica.
Mas o problema é que esse grupo, a partir de Mises, apelou para um recurso que, embora justificável até certo ponto, provoca pruridos em quem quer levar a crítica ao socialismo a sério. A opção de Mises é caminhar ao contrário da ciência, em direção à epistemologia. O apreço pelo antissocialismo tinha raízes, provavelmente, na aparência falsa das proposições marxistas depois de mais de meio século de teoria que fez com que, mesmo superficialmente, pudesse se entender que trabalho, ideologia, classe e poder, por exemplo, não eram exatamente como Marx postulou e talvez não fosse mesmo na realidade que ele propôs a observar. Nesse momento, entram as teorias de Popper e seu falseamento. Economia, comportamento, sociedade, nenhuma ciência poderia abordá-los de modo positivo, pois jamais se poderia conseguir empiricamente dados que permitissem tentar falseá-las, testá-las aos seus limites. Admitindo isso, Mises tenta uma saída inteligente para seu esforço: adotar uma hermenêutica baseando-se numa hipótese que se eleva a condição de tese per se, ou seja, ele comete a mesma mancada que Marx, Freud, Comte e todos os possíveis filósofos a partir deles até os pré-socráticos na Grécia: uma grande pedalada filosófica, adotando conclusões a partir de postulados apriorísticos. O problema é se julgar a isenção desses postulados, já que uma das ideias de Mises era não se importar com a história ou mesmo com teorias correlatas à sua. Sua "sacada genial" a respeito da ação humana era peça fundamental para o desenvolvimento das suas ideias sem precisar passar por um caminho que obviamente colocaria bases epistemológicas desconfortáveis à sua frente. Para isso, nada melhor do que usar Popper como escudo.
Mas o tempo passa, Popper fica para trás, porque fica claro, ao longo do século passado, de que ciência é um termo que unifica não uma série de práticas que têm os mesmos ferramentais, pressupostos ou métodos correlatos, mas que têm teleologias parecidas. Uma ciência pode desenvolver métodos próprios de estudar seus objetos e esse lidar com o objeto pode propor saídas racionais que não sejam a adoção consciente de posturas anticientíficas como a hermenêutica, sob a desculpa de que certas coisas não podem passar por um teste de matemática. Aliás, foi a necessidade de não se abandonar a ciência que fez surgir no escopo das humanidades, a real e mais bem-sucedida crítica a Marx, nesse âmbito, pode-se deixar a opção liberal de Mises e sua escola austríaca. Menos Marx, mas também menos Mises, isso significa menos hermenêutica, menos esoterismo filosófico, menos teorias de curto alcance, aplicabilidade restrita. A filosofia, ela própria, traz nomes como Arendt ou Foucault, que localizaram em Marx problemas relacionados a sua epistemologia e à validade de categorias que Marx criou para explicar seus conceitos. As teorias de ambos têm consequências, por exemplo, ao desconstruir o marxismo e expor à falsidade suas ideias, mas de forma alguma adota posturas anticientíficas. A opção de Mises fala um pouco de sua limitação como epistemólogo e uma postura mais filosófica e quase metafísica, alçando a "vontade humana" a um patamar de inacessibilidade que, ao mesmo tempo, fornecia ao seu intelecto uma série de postulados que permitem alcançá-la por meio da ação. É lógico, é compreensível, é racional, atende a um desdobramento da racionalidade científica proposta por Popper, mas de alguma forma, se aproveita do mesmo tipo de má fé que Marx utilizou ao lançar sua obra magna. Alguma espécie de preguiça teórico-metodológica ficou em voga na Europa durante quase um século inteiro. Ter uma boa desculpa para não encarar a ciência, não repensá-la de frente e não buscar saídas durou por muito tempo.
Como resposta a Popper, é só buscar se entender como se formam objetos. Um percurso que torna algo científico não precisa exatamente passar pelo crivo do falseamento, haja vista que economia, sociologia, antropologia, por exemplo, continuam ciências sérias até hoje, mesmo que possam lidar com uma massa de dados que não pode falsear leis econômicas ou do comportamento humano em sociedade. Talvez porque, nesse ponto, houve que se criar limites epistemológicos e posições científicas não cristalizadoras, métodos próprios a respeito do objeto. A postura que um conhecimento científico tem de criar proposições a respeito de seu objeto que sejam reconhecíveis como discurso próprio de cada ciência podem sair do escopo da necessidade de um falseamento à moda popperiana. A medida que seja possível criar leis de proposições a respeito de um objeto, o discurso é ciência, mesmo que não se saiba, naquele momento, se essas leis sejam mesmo imutáveis. E se mudaram? Mudou o objeto junto? Ele deixou de existir? O que Popper sabia a respeito da constituição da verdade ao longo da história das ideias permitia continuar com essa afirmação de que ciência tem seu limite e deve abandonar objetos? E a geologia, a física quântica, a astronomia e toda uma gama de ciências que não circunscrevem seu objeto a uma existência concreta?
Por fim, Marx era menos ciência do que ele queria ser, na verdade, seu conhecimento parou num limiar que Foucault chamou de epistemologização, sem ter realmente alcançado o posto de ciência social, econômica. Saiu da filosofia e continuou nela. O mesmo fez Mises, com sua abordagem propositalmente "radical" da filosofia das ciências em busca de terreno epistemológico para o liberalismo. Talvez por isso, quer marxistas, ou adeptos de Mises usem argumentos análogos para se defenderem de críticas: aquele que não reconhece na ciência autoridade o suficiente para críticas epistemológicas.
O campo de onde a minha própria crítica sai também é filosófico, também não é exatamente ciência, nem deseja sê-lo, embora busque, por meio dela, compreender, criticar, avaliar e analisar, na tentativa de retroalimentá-la de possíveis contribuições. A ciência não deve nunca ser encarada como um corpo sólido demais, embora as teorias científicas sejam assim, deixando à filosofia a fluidez das ideias que não precisam se apoiar em nenhum solo, obrigatoriamente. Falo de um ponto de vista também epistemológico, pois a Análise de Discurso não nega a ciência, nem se submete a nenhuma delas, mas busca compreendê-las, e para isso, não precisa e nem tem proveito nenhum em anulá-las por uma negação. Para Mises, Marx está errado porque não há como controlar a ação humana e validar os pressupostos teóricos do marxismo (que para o grupo dele é a mesma coisa que socialismo, comunismo, enfim, uma opção leviana, assim como a escolha de radicalizar a crítica popperiana à ciência para ter que se livrar dela).
Achar que Popper levou Mises para longe de toda e qualquer ciência é errado. Ao contrário. A negação de Mises á ciência e sua adoção à hermenêutica fez com que ele saísse do centro político e ideológico específico do recorte científico dos objetos, saiu das teleologias e dos comprometimentos da ciência com a verdade para conforto epistemológico dos limiares anteriores às leis e proposições científicas, onde se pode dizer mais, criticar com mais liberdade, apelar para entidades esotéricas como a "vontade humana", "ação humana", e toda uma série de ideias que rondaram, no mundo filosófico europeu do século passado, a ideia perturbadora de sujeito uno, consciente, cognoscente, eu individual, cogito cartesiano. Popper, Mises, Marx jamais consideraram o possível espalhamento da ciência, do surgimento de entidades epistemológicas que mostrariam outras formas de objetivar o ser humano. A linguagem, o pensamento, a sociedade, todos esses esforços apontaram para outras realidades da existência humana, pensar a "vontade" ou "ação humana" sem uma abordagem que mergulhe o filósofo ou cientista na compreensão da linguagem humana ou na construção sócio-histórica de seu pensamento, não me parece nem ao menos correta.
Mas, por fim, isso não invalida nem Marx, nem Mises. Ambos seguem como piloto de ideias tais e tais que circulam na sociedade, concepções ready to use, geralmente ligadas à existência universitária no ocidente e sua periferia, notoriamente no Brasil e na América Latina. Como epistemologia, Mises ilumina o liberalismo e muito do conhecimento das ciências humanas parte de Marx. Há coisas válidas que não precisam ser destruídas numa varredura (popperiana?) pela verdade. A respeito de Marx, por exemplo, ainda não vi teorias que pudessem superar o avanço científico que seguidores seus tiveram, a partir de pressupostos que Marx lançou e que puderam ser comprovados na prática. A psicologia de Vygotsky, a linguística e teoria do discurso de Voloshinov e Bakhtin, a pedagogia de Freire,por exemplo, ultrapassam em muito agremiações clássicas do marxismo fora do mundo comunista. Dessa forma, quer a Escola de Frankfurt ou a Escola Austríaca tenham construído um cabedal imenso de conhecimento levando a teoria de seus mestres à porta do século XXI.
Por acaso, onde o marxismo pôde ser ciência de verdade, foi no neomarxismo de periferia, longe dos olhos e ouvidos dos reis, viraram verdades epistemológicas que se reaplicadas ao próprio marxismo poderiam facilmente ajudar a repensar a teoria ou a marcar tempos específicos, como por exemplo, o momento em que Vygotsky, Bakhtin ou Freire recriaram teorias materialistas dialéticas que superaram completamente Marx. Esses três, assim com Arendt e Foucault (claramente antimarxistas) são comumente localizados como pensadores da esquerda, ou suas ideias são mais discutidas, e lidas no meio, por pessoas que se assumem de esquerda. Portanto, fora dessa grupo, ainda não li crítica a Marx que fosse mais acertada ou coerente.
Quanto a Mises, o desconhecimento que eu possuo da obra de seus seguidores não me permite fazer essa afirmação, mas é de se esperar que sua postura anticientífica possa ter sido relativizada no contexto da concorrência que a produção da escola que o segue possui no circuito de circulação de ideias. Mas por enquanto é só um palpite.
Quanto a Mises, o desconhecimento que eu possuo da obra de seus seguidores não me permite fazer essa afirmação, mas é de se esperar que sua postura anticientífica possa ter sido relativizada no contexto da concorrência que a produção da escola que o segue possui no circuito de circulação de ideias. Mas por enquanto é só um palpite.
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