Notre Dame à gauche...

O fogo em Notre Dame causou uma nova onda de indignações contra os valores e prioridades da sociedade. Ao lamentar a perda cultural e artística imensa que a destruição da catedral representa, muitos também notaram a reação de pessoas de "esquerda" que criticaram essa perda. De repente o mundo ironicamente descobre a opressão, os males do colonialismo, a intervenção francesa nas suas ex-colônias, os impostos coloniais e o império espiritual e opressor que o catolicismo criou na Europa desde a antiguidade. De repente, a "esquerda" odeia a religião.
A crítica da esquerda é objetiva e verdadeira, mas é cínica, na medida em que não partirá da esquerda a solução de quaisquer problemas que ela aponta. Ela não terminará de destruir Notre Dame, nem a reerguerá das cinzas. Nem fará nada para impedir a opressão da religião sobre as pessoas. Nem tentará impedir a intervenção europeia nas suas ex-colônias. Nem sequer tentará arrecadar fundos para ajudar os africanos cujos lares foram destruídos por um furacão há algumas semanas. Apenas critica para se exercitar no seu lugar de fala e abandonará essa pauta em prol da próxima que surgirá. É polêmica pela polêmica.
Mas ainda assim, é saudável e correto que haja críticas. A esquerda, a direita, o centro e quem quer que seja tem o direito de criticar, basta ter opinião, lucidez e boa vontade. Não é certo silenciar a esquerda por mais ineficiente que ela seja. Pior ainda é se não pudermos criticar. E toda crítica contra o cristianismo é necessária e nesse ponto, a "esquerda" possui primazia e lugar de fala.
O ódio da esquerda pela religião é um produto da própria religião. A "esquerda" se formou no terceiro estado francês lutando contra uma nobreza e contra um CLERO que condenavam um país inteiro a perecer de fome por causa de seus privilégios. É saudável e interessante que desde então, uma "esquerda" odeie a religião e tudo de ruim que ela represente hoje. A destruição de um monumento católico traz prejuízos culturais imensos, mas não apaga a destruição e opressão causados pelo cristianismo de Constantino, Imperador Romano, até hoje. Quem aplaude a destruição de patrimônio histórico e artístico é idiota, fogo não destrói o ideário cristão, nem suas ideias preconceituosas, nem impede que pessoas sejam enganadas e exploradas por sacerdotes e outros religiosos. É burrice comemorar o incêndio de uma igreja como vitória contra o cristianismo. Essa vitória virá quando os milhares de padres pedófilos e estupradores forem presos, quando as igrejas católicas e evangélicas pagarem impostos e a população se rebelar contra a ideia de pecado e inferno que ataca até os mais éticos.
Até lá, criticar é o mínimo que podemos fazer, mas apenas um mínimo sem muitos resultados. Precisamos fazer mais.

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