Cinismo e economia
A tragédia de Brumadinho traz consequências desastrosas para todos, inclusive para a Vale, a mineradora responsável pela indizível tragédia que temos acompanhado pelos meios de comunicação. Hoje, no entanto, um sentimento diferente da consternação e pena me tomou o coração, ao assistir aos noticiários. Uma coisa que já me irrita profundamente há algum tempo: a discussão econômica cínica, conveniente a um lado apenas, que não leva em consideração as implicações éticas das atividades humanas.
O importante agora é noticiar, mesmo entre mil reportagens de bombeiros enlameados, que as ações da Vale pararam de cair e que os acionistas não terão tanto prejuízo. O preço do minério de ferro aumentou, isso também aqueceu o valor da empresa que fez com que o IBOVESPA tivesse alta, etc. Dezenas de corpos foram achados mortos em meio à lama, outras centenas estão desaparecidos, pessoas desesperadas, outras barragens oferecendo risco país afora. A discussão econômica a respeito disso deveria ser outra. A Vale precisa ser imediatamente retirada do mercado, seus sócios-acionistas precisam ser justamente remunerados e incentivados a investir em outro tipo de negócio. Ela deveria ser banida para sempre de toda e qualquer atividade humana.
Caso isso seja considerado impossível, a empresa precisa de imediata intervenção de uma nova diretoria, se possível do governo, até que possa ser devolvida aos seus acionistas saneada, legalizada e totalmente fora do controle de quem põe em risco a natureza, as pessoas nela envolvidas e, por fim, a própria atividade de mineração, essencial para o funcionamento do país.
Interessante como um recurso natural fica nas mãos de quem lucra com isso, divide e faz tão pouco pela sociedade. O minério é nosso. Um monte de coisa que nos vendem, já é nosso, o preço do que é feito de ferro, de ouro, do petróleo, das telecomunicações, da água, deveria ser menor do que é hoje, porque parte dessas coisas, já é nossa, por definição. As empresas que tivessem interesse em explorar isso deveriam se contentar com o fato de que parte daquilo ali é da população e deve retornar a ela sem custo excessivo. Caso isso não pudesse ser feito dessa maneira, o controle deveria ser do governo, ou a população deveria ser chamada a se consorciar para proporcionar o bem-estar a todos sem excesso de lucro.
O lucro gerou essa tragédia, se não houvesse a possibilidade de sempre se ganhar mais, negligenciando a segurança em troca de custos menores, jamais haveria desastre. E agora, as coisas vão como vão e esperamos que a Vale pelo menos entre em falência como forma justa de se pagar pelas vidas que ela tira há muito tempo. A empresa é uma assassina em série, mata a olhos vistos, não mostra remorsos e nem sequer sofre uma penalidade séria. Outras empresas mais qualificadas pelo mundo poderiam ocupar seu lugar, se a desculpa é continuar de modo idiota, estúpido com esse tipo de exploração. Mas nem isso acontece. A Vale há de ficar mais impune do que punida.
O lobby, as propinas, a facilidade em fazer o ilegal por causa do poderio econômico, todos esses fatores mataram em Mariana, levando todo o distrito de Bento Rodrigues, para ele nunca mais voltar. Mataram em Brumadinho, seguem matando mundo afora, escravizando, envenenando, destruindo biomas e nossos governos fingem se importar com isso, fingem fazer algo a respeito. Basta ver o que acontecerá com Brumadinho, quando acontecer de novo em outro município, ou quando a tragédia fizer aniversário, a TV mostrar outro dramalhão recorde de audiência e tudo ficar por isso mesmo.
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