MASSACRE DE SUZANO


Os crimes de Suzano nos colocam numa posição ética desconfortável. A tendência de culpar os indivíduos e somente eles parecem fazer mais sentido, a partir do momento em que nos parece também mais confortável esquecermo-nos de que a gestão da vida não é uma preocupação individual. Antes, é tarefa primordial dada ao Estado em nosso contrato social, cabe ao Estado o poder abundante de deixar morrer. E se indivíduos matam impunemente, é porque o Estado deixa, porque o Estado negligencia. Enquanto se decide de quem é a responsabilidade, o mesmo Estado se esquiva de cuidar, gerir, de lançar mão dos saberes que o suportam para descobrir meios eficazes de nos proteger como cidadãos, ao mesmo tempo em que o mesmo Estado permite e se beneficia de quem nos desvia desse foco. Numa época em que deuses não mais nos salvam o Estado é conivente com quem quer nos matar, aliás, ele falha em proteger quando não negocia nossas vidas de maneira descarada.

A respeito do mass shooting de ontem, em Suzano, eu tenho pouco a dizer, é um assunto sobre o qual eu não estudei muito, embora eu possa dar uma opinião, e certamente não há de ser uma opinião fragmentada, como algumas que cheguei a ler aqui no Facebook, ou na mídia em geral, que buscam explicar as coisas com base numa epistemologia manca neodeterminista, uma explicação generalizada do mundo e das coisas que não leva em consideração o que há de mais coerente em matéria do entendimento do que seja o ser humano, mas enfim... Tempos líquidos, inteligências gasosas.
Não acho que seja natural ao ser humano ser violento DAQUELE modo. Seria natural sermos todos muito violentos se não fôssemos dotados de cultura e nem vivêssemos em sociedades que nos proporcionam vivenciar e aprender sabres e valores por meio da interação social. Nesse ponto, a cultura é uma força poderosa, imbatível, inexorável. Há nisso tudo uma parcela devida aos nossos genes e a um certo determinismo biológico. Mas essa capacidade ligada apenas à vida tende a zero quando a nossa espécie entra na rede articulada da linguagem, da memória, da produção e recuperação do conhecimento. Nunca mais seríamos animais, a não ser por nossa filogenia, porque entre nós, humanos, qualquer coisa tem sentido profundo e significado compartilhado. Até a violência.
Então, mesmo que haja exames de imagem do cérebro, resultados quantitativos de testes psicométricos que provem que os dois assassinos suicidas de Suzano eram como eram por que nasceram do modo que nasceram, a verdade é que ninguém sabe como nasceram. Ninguém tem certeza, nem as ciências da vida, nem a neurociência, de que certas configurações do funcionamento das áreas cerebrais correspondem exatamente a comportamentos tais e tais sem vincular isso ao substrato cultural. As Ciências Humanas são ciências e uma epistemologia respeitável a respeito do objeto a que se dedica. O que há de melhor delas nos prova que não há output cultural sem um input cultural e não há zeros culturais em que se possa observar comportamentos animalescos no ser humano que justificasse matar por matar. Um psicopata cruel só pode ser chamado de PSICOPATA a partir de um background cultural de normalidade, não há sequer a mínima possibilidade de indicar uma psicopatologia congênita porque não se trata de um fenótipo, a mente não é uma característica fenotípica como a cor dos olhos.
Os assassinos de Suzano foram criados para serem pessoas da cultura circundante e sua resposta violenta à criação, sua negação extrema dos valores culturais só pode ser entendida por dois vieses. O primeiro deles é a possiblidade de que possam ter sido vítimas de algum tipo de privação dos valores culturais que se esperava que desenvolvessem. Esse tipo de explicação é muito generalista e geralmente se perde no torvelinho das culpabilidades momentâneas que incluem fatores diversos: vão desde o papel de progenitores até o conhecimento que foi posto acidentalmente ou não à disposição desses indivíduos. Esse tipo de questionamento é verbalizado geralmente pelas expressões de senso comum que dizem ser falta de Deus, falta de fé, falta de moral, falta de temor, falta de educação; ou dizem ser excesso de liberdade, excesso de libertinagem, excesso de violência. O outro viés é mais exato em sua composição de discurso, e mostra dados, argumentos, opiniões de especialistas, geralmente envolve alguma ciência da natureza ou o campo multidisciplinar do saber da medicina ou da psicologia. Aqui, condenações semelhantes àquelas do senso comum surgem, mas sem o lastro no discurso retrógado e culpabilizante. Ao contrário, parece, depois de um certo ponto, uma volta ao determinismo naturalista do fim do século XIX: genes, desenvolvimentismo, eletroquímica cerebral, privação de nutrientes, excesso deles. O homem nasce mau e a cultura é falha em moldar-lhe o caráter, escolhendo os mais ricos para serem menos propensos à criminalidade bruta, ou pelo menos para exercerem a violência em igual quantidade e valor, mas infinitamente mais simbolizada e sofisticada. Em um certo momento, as ciências perdem totalmente seu caráter de verdade e enveredam pelo viés obscuro da hermenêutica que torce os sentidos em torno de uma vontade de verdade que precisa se autopreservar, antes de qualquer coisa. A ciência precisa referendar a necessidade, a falibilidade mínima da sociedade, quer seja por tirar completamente um episódio desses, como o massacre de Suzano, do campo da normalidade e explicá-lo por um meio de complexos processos de adoecimento das pessoas pela violência, ou ainda tentam mostrar que há pessoas que nascem assim e jamais se comportam normalmente por motivos genéticos quaisquer (ampliando-se aqui o conceito do adjetivo para significar qualquer gênese).
Culpar a cultura da violência sem controle é desconfortável. É desconfortável ao imbecil que acredita piamente no poder da fé e dos valores e acha que a organização do mundo ao seu redor advém da vontade de uma divindade. Mas também é desconfortável a qualquer um que queira justificar a regência da sociedade por meio dos saberes que a sustentam, sem sacrificá-los, sem passar pela coragem da verdade de admitirmos que não sabemos ainda tudo, ou por que a sociedade se alimenta das brigas oriundas de uma eterna divisão da ciência em campos não-comunicantes que chegam a conclusões diferentes por processos diferentes, tendo o mesmo objeto. O Estado, os poderes dependem de uma ciência mais empírica, mais laboratorial que explique a violência por processos que sejam, ao mesmo tempo simples para serem ditos, mas complexos para que o controle sobre eles demande uma quantidade de poder que só uma instituição pode deter. Nesse ínterim, entender a violência é algo que não pode depender de um conhecimento que desafie as suas normas a se modificarem para entender, compreender, desnaturalizar. Pior ainda. A ciência não foi feita para retirar das instituições de poder o controle místico, porém eficiente das certezas.
Fora desses vieses, o que posso afirmar que não somos humanos até que a linguagem nos mergulhe numa cultura. E que há os que nascem divergentes, aliás, a divergência é um fator muito presente, nem todos são diferentes, mas a diferença é algo presente e notória no comportamento humano. A sociedade, à medida em que se apropria de formas de conhecimento, escolhe, segmenta, cria seus anormais baseando-se em saberes que mudam com o tempo, mas podem resistir à ideia de liberar os corpos que um dia agrilhoaram há tempos, um exemplo disso é o saber psiquiátrico, que, tendo descoberto a loucura como doença, jamais a abandonou, jamais parou de a determinar, mesmo quando parece óbvio que a doença mental não é diferente da doença do corpo, é uma impossibilidade que tira os corpos da linha de exploração pelo trabalho, portanto precisa que eles sejam doentes, para que uma nova economia possa contê-los, destruí-los ou preservá-los pelo bem da maioria. Os assassinos de Suzano eram divergentes de uma forma específica e repetitiva no comportamento humano, notoriamente na cultura ocidental na sua periferia: o assassino frio, calculista, que nega todos os valores, inclusive o mais sagrado deles: a conservação de sua própria vida.
Acreditar que eles seriam sempre assim é uma temeridade. Sabemos que se tornaram assim quando condições de divergência que podem ser manifestas por meio de especificidades corpóreas, combinações de genes ou mesmo de conjunto específico de múltiplos fatores entraram em contato com essa cultura que temos. Se fosse outra cultura seria igual? Provavelmente não, as culturas fornecem tudo o que sabemos sobre o que é ser humano. Elas nos ensinam valores, certezas, elas nos dão parâmetros específicos pelos quais podemos nos tornar o que somos. A ação negativa desses indivíduos não só depende dos parâmetros de normalidade dessa cultura, como também é a cultura que fornece a esses indivíduos um parâmetro de violência para que possam agir. Ou seja, eles aprenderam errado, aprenderam a resistir ao certo por uma margem de possibilidade dada na própria cultura. E se, por acaso, tornaram-se assassinos pela negligência de quem poderia tê-los encaminhado para outra forma de existência e não o fizeram, essa negligência também é uma das brechas, ou ainda, uma das possibilidades certas que a cultura oferece aos indivíduos nas relações que eles têm entre si, nas expressões mínimas de poder com as quais se relacionam.
Portanto, os assassinos de Suzano são uma culpa da sociedade, e ao mesmo tempo uma fatalidade produzida pela sua existência. Mas sabemos que temos culpa, quando reconhecemos o descontrole da violência, sua institucionalização, a presença permanente da violência como opção de controle. Descobrimos que é culpa de cada um de nós quando falhamos em ensinar o que é certo, quando descobrimos que o que é certo depende. E muitas vezes depende de quem está certo, do quanto essa pessoa vale em termos de relações de poder. Descobrimos nossa culpa, quando nos sacrificamos pessoalmente a uma cruel economia do uso dos nossos corpos para termos recompensa financeira o suficiente para manter uma família, mas nos esquecemos que a tarefa de compor uma família requer mais tempo livre do que aquilo que nos é dado ter. E quando esse tempo livre para criar, educar, formar um cidadão é terceirizado, podemos perder o controle. Sabemos que a culpa dos assassinatos de Suzano é nossa quando admitimos que usamos a violência como entretenimento, que normalizamos a sua presença em nosso meio e damos totais condições para que pessoas possam abusar dela sem que possamos controlar o que quer que seja. Sabemos que a culpa dos assassinatos de Suzano é nossa quando admitimos a possibilidade de mergulharmos num mainstream de individualismo que relativiza tudo, a moral, a ética, a verdade. Sabemos que a culpa dos assassinos de Suzano é nossa quando admitimos ter posturas de pós-verdade que nos permitem discriminar, humilhar, xingar, excluir. O problema é que alguns divergentes têm posturas de pós-verdade que permite que eles matem a nós. A culpa é nossa e precisamos buscar ciências que nos consigam fazer compreender isso. Nossos deuses falharam, nossas religiões não se preocupam com o bem, antes, preocupam-se em enriquecer representantes de deuses tão maus e violentos quanto nós; nossa ciência atual não perde a pose, mas é incapaz de explicar tudo, sua relação de prostituição com o poder a cega para continuar a buscar a verdade; nossa tradição é falha, somos falhos e sempre, como sempre fomos, somos mortais, sangramos quando cortados, queimamos ao fogo, morremos quando alvejados por flechas e balas. Isso deveria nos ensinar uma lição importante ao nosso respeito, mas não, somos idiotas o suficiente para colocar nossas vidas ao alcance de outros, institucionalizamos isso, persistimos no erro e continuamos mortais.

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